Crise bancária no Paraguai afeta brasileiros com dinheiro bloqueado e preocupa quem vive no país
Intervenção no Ueno Bank deixou milhões de clientes sem acesso às contas, incluindo brasileiros que dependem dos recursos para pagar aluguéis, despesas pessoais e manter negócios no país vizinho.
A crise bancária e política que atinge o Paraguai também tem provocado preocupação entre brasileiros que vivem, trabalham ou mantêm negócios no país. A intervenção no Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras paraguaias, bloqueou o acesso às contas de aproximadamente 3 milhões de clientes, incluindo milhares de brasileiros que utilizavam o banco para guardar economias, receber pagamentos e movimentar recursos.
A situação ganhou repercussão após o Banco Central do Paraguai assumir o controle da instituição, na terça-feira (3), depois de identificar que seu índice de solvência havia caído para menos da metade do mínimo exigido para funcionamento. Com a medida, clientes passaram a enfrentar dificuldades para realizar saques, transferências e pagamentos.
Segundo reportagem da BBC News Brasil, a crise pode atingir dezenas de milhares de brasileiros que moram no Paraguai. Entre os afetados estão estudantes universitários, comerciantes, produtores rurais, investidores e pequenos empresários que escolheram o Ueno pela facilidade de abertura de contas e movimentação financeira.
O problema pode comprometer despesas essenciais, como aluguel, alimentação, mensalidades e pagamentos de fornecedores, além de prejudicar o funcionamento de estabelecimentos comerciais que dependem das contas bancárias para receber vendas.
Brasileiros relatam preocupação com dinheiro bloqueado
Um dos casos relatados pela BBC News Brasil é o da empresária brasileira Renata de Brito, de 44 anos, que mantém uma lanchonete em Hernandarias, cidade próxima à fronteira com o Brasil.
Ela utilizava o Ueno Bank para guardar suas economias e receber os pagamentos dos clientes por meio de uma máquina vinculada à instituição. Com a intervenção, perdeu temporariamente o acesso aos recursos.
"Estou muito preocupada pelo meu negócio", relatou a brasileira à BBC News Brasil.
Renata também demonstrou preocupação com o pagamento de compromissos financeiros futuros, incluindo parcelas de um apartamento adquirido no Paraguai.
A situação evidencia como a crise ultrapassa o setor bancário e pode atingir diretamente a rotina de brasileiros que construíram suas atividades profissionais e financeiras no país vizinho.
Paraguai tem uma das maiores comunidades brasileiras no exterior
O impacto preocupa especialmente porque o Paraguai abriga uma expressiva comunidade de brasileiros.
Estimativas do Ministério das Relações Exteriores apontavam aproximadamente 270 mil brasileiros vivendo no país em 2025. Já dados divulgados pela Direção Nacional de Migrações do Paraguai indicam que mais de 31 mil autorizações de residência foram concedidas a brasileiros entre janeiro e setembro de 2026.
O país se tornou um destino procurado por brasileiros interessados em estudar, empreender, investir e estabelecer residência, atraídos, entre outros fatores, por custos operacionais e tributários considerados mais baixos.
Com a crise do Ueno, brasileiros que mantinham recursos na instituição passaram a enfrentar incertezas sobre o acesso ao próprio dinheiro e a continuidade de suas atividades econômicas.
Como os brasileiros poderão recuperar o dinheiro?
O Paraguai possui um Fundo de Garantia de Depósitos que protege valores de até 228,3 milhões de guaranis por cliente e por instituição financeira, quantia equivalente a aproximadamente R$ 203 mil, conforme a cotação utilizada pelo SBT News.
Na quinta-feira (5), o Banco Central anunciou o início de uma primeira etapa de devolução dos recursos. Inicialmente, serão atendidos clientes com depósitos de até 10 milhões de guaranis, aproximadamente R$ 8,9 mil, desde que não tenham dívidas com o Ueno e possuam uma conta habilitada em outra instituição financeira do Paraguai.
Os demais pagamentos deverão ocorrer de maneira gradual, conforme o andamento do processo de intervenção. Para valores superiores ao limite de cobertura do fundo, a recuperação dependerá dos mecanismos legais e da situação financeira da instituição.
O Banco Central ainda precisa esclarecer os procedimentos específicos para depositantes estrangeiros e as condições para a restituição integral dos valores.
Crise bancária provoca turbulência política no Paraguai
Além dos impactos econômicos, o caso provocou uma grave crise política no país. O presidente Santiago Peña enfrentou acusações da oposição relacionadas à sua antiga ligação empresarial com o grupo controlador do Ueno Bank. Ele foi acionista do grupo até março de 2025.
Parlamentares oposicionistas apresentaram um pedido de impeachment contra Peña e seu vice-presidente, Pedro Alliana, apontando possíveis conflitos de interesse e questionamentos sobre a fiscalização do banco.
A crise também levou à saída de Carlos Carvallo da presidência do Banco Central e à abertura de investigações criminais envolvendo dirigentes da instituição financeira.
Na quinta-feira (5), Peña anunciou sua renúncia à Presidência e pediu desculpas à população. Entretanto, até a atualização das informações divulgadas pela imprensa, a situação ainda dependia de encaminhamentos institucionais no Congresso, que também discutia o processo de impeachment.
O episódio aumentou a preocupação de investidores e empresários estrangeiros, especialmente brasileiros, que veem o Paraguai como destino para investimentos e expansão de negócios.
Enquanto as autoridades trabalham para garantir a devolução dos depósitos, brasileiros que utilizavam o Ueno Bank aguardam a liberação dos recursos e buscam alternativas para manter suas despesas e atividades comerciais.






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